Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

Correu a mão aberta pela face escaveirada, lançou à estrofe num tom de lamento:

Luz de esperança, luz de amor,
Que vento vos desfolhou?
Que a alma que vos seguia
Nunca mais vos encontrou!
Carlos murmurou: «Lindo!» Ega murmurou: «Muito fino!» E o poeta, aquecendo, já comovido, esboçou um movimento de asa que foge:
Minh'alma em tempos de outrora,
Quando nascia o luar,
Como um rouxinol que acorda
Punha-se logo a cantar.
Pensamentos era flores,
Que a aragem lenta de Maio...
- O Sr. Cruges! anunciou o criado, entreabrindo a porta.
Carlos ergueu os braços. E o maestro, todo abotoado num paletó claro, abandonou-se à efusão de Carlos, balbuciando:
- Eu só ontem é que soube. Queria-te ir esperar, mas não me acordaram...
- Então continua o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca te acordam?
Cruges encolhia os ombros, muito vermelho, acanhado, depois daquela longa separação. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais agudo, a grunha caindo mais crespa sobre a gola do paletó.
- E deixa-me dar-te os parabéns! Lá soube pelos jornais, o triunfo, a linda ópera-cómica, a Flôr de Sevilha...
- De Granada! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ai, não desgostaram. - Uma beleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma música toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas já lhe tenho dito: «Deixa lá a opereta, rapaz, voa mais alto, faze uma grande sinfonia histórica!» Ainda há dias lhe dei uma ideia. A partida de D. Sebastião para a África. Cantos de marinheiros, atabales, o choro do povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, põe-se-me lá com castanholas... Enfim, acabou-se, tem muito talento, e é como se fosse meu filho porque me sujou muita calça!...
Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou a Carlos que não se podia demorar, tinha um rendez-vous...
- De amor?
- Não... É o Barradas que me anda atirar o retrato a óleo.
- Com a lira na mão?
- Não, respondeu o maestro, muito sério. Com a batuta... E estou de casaca.
E desabotoou o paletó, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois corais no peitilho da camisa, e a batuta de marfim metida na abertura do colete.
- Estás magnífico! afirmou Carlos. Então outra coisa, vem cá jantar logo. Alencar, tu também, hein? Quero ouvir esses belos versos com sossego... Ás seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho à portuguesa que encomendei de manhã com cozido, arroz de forno, grão de bico, etc., para matar saudades...
Alencar lançou um gesto imenso de desdém. Nunca o cozinheiro do Braganza, francelhote miserável, estaria à altura desses nobres petiscos do velho Portugal. Enfim acabou-se. Seria pontual ás seis para uma grande saúde ao seu Carlos!
- Vocês vão sair, rapazes?

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