Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

Nome:
Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

- Então Carlos?




- Então Carlos?
Ega balbuciou:
- Como V. Exc.ª pode imaginar, num momento destes... Foi horrível, assim de surpresa...
Uma lágrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ela não conhecia o Sr. Afonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas sofria realmente por sentir bem o sofrimento de Carlos... O que aquele rapaz estremecia o avô!
- Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a coroa que ela mandara. Contou os gemidos, a aflição do pobre Bonifácio...
- E Carlos? repetiu ela.
- Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ela apertou as mãos, numa surpresa que a acabrunhava. Para Santa Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empalidecia-a mais, diante daquela partida tão arrebatada, quasi parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança que não sentia:
- Sim, com efeito, neste momento não se pensa nos outros...
Duas lágrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante desta dor, tão humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos trémulos no bigode, viu Maria chorar em silêncio. Por fim ergueu-se, foi à janela, voltou, abriu os braços diante dela numa aflição:
- Não, não é isso, minha querida senhora! Há outra coisa, há ainda outra coisa! Tem sido para nós dias terríveis! Tem sido dias de angustia...
Outra coisa?... Ela esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
- V. Exc.ª lembra-se dum Guimarães, que vive em Paris, um tio do Dâmaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
- Esse Guimarães era muito conhecido da de V. Exc.ª não é verdade?
Ela teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava ainda, com a face arrepanhada e branca, num embaraço que o dilacerava:
- Eu falo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... Deus sabe o que me custa!... E é horrível, nem sei por onde hei de começar...
Ela juntou as mãos, numa suplica, numa angustia:
- Pelo amor de Deus!
E nesse instante, muito sossegadamente, Rosa erguia uma ponta do reposteiro, com Niniche ao lado e a sua boneca nos braços. A mãe teve um grito impaciente:
- Vai lá para dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente cheios de água. O reposteiro caiu, do fundo do corredor veio um grande choro magoado.
Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.
- V. Exc.ª conhece a letra de sua mãe, não é verdade?... Pois bem! Eu trago aqui uma declaração dela a seu respeito... Esse Guimarães é que tinha este documento, com outros papéis que ela lhe entregou em 71, nas vésperas da guerra... Ele conservou-os até agora, e queria restituir-lhos, mas não sabia onde V. Exc.ª vivia. Viu-a há dias numa carruagem, comigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, V. Exc.ª deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vínhamos da Toca... Pois bem! o Guimarães veio imediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe esses papéis, para que os entregasse a V. Exc.ª... E nas primeiras palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que V. Exc.ª era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
Atabalhoara esta história de pé, quasi dum fôlego, com bruscos gestos de nervoso. Ela mal compreendia, lívida, num indefinido terror. Só pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emudeceu, assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá, desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou para ela com um papel na mão, atropelando as palavras numa debandada:

Translate this page into Spanish using FreeTranslation.com.