Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

Então Ega reflectiu.

Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma romagem à quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar à mãe algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante para o luxo de ambos», Ega atalhou muito sério:
- Não, não! Minha mãe também é rica. Uma viagem à América e ao Japão são formas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação. O que aceito, sim, é uma das tuas malas de couro...
Quando nessa noite, acompanhados pelo Vilaça, Carlos e Ega chegaram à estação de Santa Apolónia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de saltar para o seu compartimento reservado - enquanto o Baptista, abraçado ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O trem imediatamente rolou. Carlos debruçou-se à portinhola, gritando ao Ega: - «Manda um telegrama amanhã a dizer o que houve!»
Recolhendo ao Ramalhete com o Vilaça, que ia nessa noite coligir e selar os papéis de Afonso da Maia, Ega falou logo nas quinhentas libras que ele devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda. Vilaça recebera com efeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, entre amigos, não lhe parecia excessiva a soma, para uma jornada? Além disso Carlos falara em estabelecer a essa senhora uma mesada de quatro mil francos, cento e sessenta libras! Não achava também exagerado? Para uma mulher, uma simples mulher...
Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
- Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem ainda de ser muito estudado. Não falemos nisso. Eu nem gosto de falar disso!...
Depois como Ega aludia à fortuna que deixava Afonso da Maia - Vilaça deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de renda. As propriedades do Alentejo, com os trabalhos que lá fizera o pai dele Vilaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma despesa. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.
- Há muito dinheiro! exclamou ele com satisfação, batendo no joelho do Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.
- Consola de muito, com efeito.
Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar feliz e amável que ali houvera e que para sempre se apagara. Na ante-câmara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os que se dão numa casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso e de fenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.
- Já anda aqui um ar de ruína, Vilaça.
- Ruínasinha bem confortável, todavia murmurou o procurador dando um olhar ás tapeçarias e aos divãs, e esfregando as mãos, arrepiado da friagem da noite.
Entraram no escritório de Afonso, onde durante um momento se ficaram aquecendo ao lume.O relógio Luís XV bateu finalmente as nove horas - depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e morreu. Vilaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto arranjar também a sua papelada, fazer a limpeza final de dois anos de mocidade...
Subiu. E pousara apenas a luz sobre a cómoda, quando sentiu ao fundo, no silêncio do corredor, um gemido longo, desolado, duma tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabelos. Aquilo arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos de Afonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifácio, que, diante do quarto de Afonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso. O pobre Bonifácio fugiu, obeso e lento, com a cauda fofa a roçar o chão: mas voltou logo e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o duma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer.
Ega correu ao escritório a pedir ao Vilaça que dormisse essa noite no Ramalhete. O procurador acedeu, impressionado com aquele horror do gato a chorar. deixara o montão de papéis sobre a mesa, voltara a aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentara, ainda todo pálido, no sofá bordado a matiz, antigo lugar de D. Diogo, murmurou devagar, gravemente:
- Há três anos, quando o Sr. Afonso me encomendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete. O Sr. Afonso da Maia riu de agouros e lendas... Pois fatais foram!
No dia seguinte, levando os papéis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Vilaça lhe entregara à porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a afrontar a crise serenamente, subiu ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte - quando Maria Eduarda entrou, pálida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas

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