Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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sábado, setembro 10, 2005

- Este Tomás!

exclamava Ega, pousando-lhe a mão no ombro com carinho. Não há outro, é único! O bom Deus fê-lo num dia de grande verve, e depois quebrou a fôrma.
Ora, histórias! murmurava o poeta radiante. Havia-os tão bons como ele. A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Bíblia - ou do mesmo macaco como afirmava o Darwin...
- Que, lá essas coisas de evolução, origem das espécies, desenvolvimento da célula, cá para mim... Está claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o Claudio Bernard, o Litré, tudo isso, é gente de primeira ordem. Mas acabou-se, irra! Há uns poucos de mil anos que o homem prova sublimemente que tem alma!
- Toma o cafésinho, Tomás! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chávena. Toma o cafésinho!
- Obrigado!... E é verdade, João, lá dei a tua boneca à pequena. Começou logo a beijá-la, a embala-la, com aquele profundo instincto de mãe, aquele quid divino... É uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem mãe, coitadinha, lá a tenho, lá vou tratando de fazer dela uma mulher... Hás-de vê-la. Quero que vocês lá vão jantar um dia, para vos dar umas perdizes à espanhola... Tu demoras-te, Carlos?
- Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da pátria.
- Tens razão, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. Isto ainda não é tão mau como se diz... Olha tu para isso, para esse céu, para esse rio, homem!
- Com efeito é encantador!
Todos três, durante um momento, pasmaram para a incomparável beleza do rio, vasto, lustroso, sereno, tão azul como o céu, esplendidamente coberto de sol.
- E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. Abandonaste a língua divina?
Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia já a língua divina? O novo Portugal só compreendia a língua da libra, da «massa». Agora, filho, tudo eram sindicatos!
- Mas ainda ás vezes me passa uma coisa cá por dentro, o velho homem estremece... Tu não viste nos jornais?... Está claro, não lês cá esses trapos que por aí chamam gazetas... Pois veio aí uma coisita, dedicada aqui ao João. Ora eu ta digo se me lembrar...

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