Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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sábado, setembro 10, 2005

- A mãe de V. Exc.ª nunca lho disse...

Havia um motivo muito grave... Ela tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim brutalmente, perdoe-me V. Exc.ª mas não é o momento de atenuar as coisas... Aqui está! V. Exc.ª conhece a letra de sua mãe. É dela esta letra, não é verdade?
- É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
- Perdão! gritou Ega, retirando-lho violentamente. Eu sou um estranho! E V. Exc.ª não se pode inteirar de tudo isto enquanto eu não sair daqui.
Fora uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque terrível, o horror das coisas que ela ia saber. E insistiu. Deixava-lhe ali todos os papéis que eram de sua mãe. Ela leria, quando ele saísse, compreenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os dois pesados rolos de libras, o sobrescrito que continha a letra sobre Paris, pôs tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte.
- Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que V. Exc.ª deve fazer já é partir para Paris. V. Exc.ª tem direito, como sua filha há de ter, a uma parte da fortuna desta família dos Maias, que agora é a sua... Neste masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as despesas imediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão. Quando V. Exc.ª decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao Ramalhete para eu estar na gare... Creio que é tudo. E agora devo deixa-la...
Agarrara rapidamente o chapéu, veio tomar-lhe a mão inerte e fria:
- Tudo é uma fatalidade! V. Exc.ª é nova, ainda lhe resta muita coisa na vida, tem a sua filha a consola-la de tudo... Nem lhe sei dizer mais nada!
Sufocado, beijou-lhe a mão que ela lhe abandonou, sem consciência e sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lívidez parada dum mármore. E fugiu.
- Ao telegrafo! gritou em baixo ao cocheiro.
Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéu, respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo rodas as consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o seu pecado fora inconsciente; o tempo acalma toda a dor; e em breve, já resignada, encontrar-se-hia com uma família séria, uma larga fortuna, nesse amável Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil francos, têm sempre um reinado seguro...
- É uma situação de viúva bonita e rica, terminou ele por dizer alto no coupé. Há pior na vida.
Ao sair do telegrafo despediu a tipóia. Por aquela luz consoladora do dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta que prometera a Carlos. Vilaça já lá estava instalado, com um boné de veludilho na cabeça, emassando ainda os papéis de Afonso, liquidando as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumaram junto do lume, na sala Luís XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, numa carruagem, procurava o Sr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, alguma resolução desesperada. Vilaça ainda teve a esperança dela trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»... Ega desceu a tremer. Era Melanie numa tipóia de praça, abafada numa grande ulster com uma carta de Madame.
Á luz da lanterna Ega abriu o envelope, que trazia apenas um cartão branco, com estas palavras a lápis: «Decidi partir amanhã para Paris.»
Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo as escadas: e seguido de Vilaça, que ficara na ante-câmara à espreita, correu ao escritório de Afonso, a escrever a Maria. Num papel tarjado de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)- que o wagon-salão estava tomado até Paris, e que ele teria a honra de a ver em Santa Apolónia. Depois, ao fazer o sobrescrito, ficou com a pena no ar, num embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?» Vilaça achava preferível o antigo nome, porque ela legalmente ainda não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, também já não era Mac-Gren...
-Acabou-se! Vai sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
Levou assim a carta, dentro do sobrescrito em branco. Melanie guardou-a no regalo. E, debruçada portinhola, entristecendo a voz, desejou saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor...
Ega ficou com o monóculo sobre ela, sem sentir bem se aquela curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma indicação. Era nos Prazeres, à direita, ao fundo, onde havia um anjo com uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos Snrs. Vilaças.
- Merci, monsieur, bien le bonsoir.
- Bonsoir, Melanie!
No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma mascara: e a mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sarah, numa ulster clara de quadrados, sobraçava um masso de livros. Atrás o Domingos, com olhos muito vermelhos, segurava um rolo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que levava Niniche ao colo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silêncio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a luva.







Essa foto pertence a minisserie Os Maias,
Carlos vai se despedir de Maria Eduarda na estacão,
no livro não acontece essa cena linda!

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