Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

- É necessário descer, é necessário vestir-nos.

Carlos balbuciou:
- Sim, vamo-nos vestir...
Mas não se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braço. Ele caminhava como um sonâmbulo, passando o lenço devagar pela testa e pela barba. E de repente no corredor, apertando desesperadamente as mãos, outra vez coberto de lágrimas, num agoniado desabafo de toda a sua culpa:
Ega, meu querido Ega! O avô viu-me esta manhã quando entrei! E passou, não me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
Ega arrastou-o, consolou-o, repelindo tal ideia. Que tolice! O avô tinha quasi oitenta anos, e uma doença de coração... Desde a volta de Santa Olavia, quantas vezes eles tinham falado nisso, aterrados! Era absurdo ir agora fazer-se mais desgraçado com semelhante imaginação!
Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no chão:
- Não! É estranho, não me faço mais desgraçado! Aceito isto como um castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me só muito pequeno, muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manhã pensava em matar-me. E agora não! É o meu castigo viver, esmagado para sempre... O que me custa é que ele não me tivesse dito adeus!
De novo as lágrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero. Ega levou-o para o quarto, como uma criança. E assim o deixou a um canto do sofá, com o lenço sobre a face, num choro continuo e quieto, que lhe ia lavando, aliviando o coração de todas as angustias confusas e sem nome que nesses dias derradeiros o traziam sufocado.
Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Vilaça lhe rompeu pelo quarto de braços abertos.
- Então como foi isto, como foi isto?
Baptista mandara-o chamar pelo trintanário, mas o rapazola pouco lhe soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraçara-o, coitadinho, lavado em lágrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe só para se entender em tudo com o Ega... E ali estava.
- Mas como foi, como foi, assim de repente?...
Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Afonso de manhã no jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o Dr. Azevedo, mas tudo acabara!
Vilaça levou as mãos à cabeça:
- Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que aí apareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois daquele abalo! Não foi mais nada! Foi isso!
Ega murmurava, deitando maquinalmente água de Colónia no lenço:
- Sim, talvez, esse abalo, e oitenta anos, e poucas cautelas, e uma doença de coração.
Falaram então do enterro, que devia ser simples como convinha àquele homem simples. Para depositar o corpo, enquanto não fosse trasladado para Santa Olavia, Ega lembrara-se do jazigo do marquês.
Vilaça coçava o queixo, hesitando:
- Eu também tenho um jazigo. Foi o próprio Sr. Afonso da Maia que o mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns dias ficava lá perfeitamente. Assim não se pedia a ninguém, e eu tinha nisso muita honra...
Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de chave do caixão. Por fim Vilaça, olhando o relógio, ergueu-se com um grande suspiro:
- Bem, vou dar esses tristes passos! E cá apareço logo, que o quero ver pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda antes de ontem a jogar com ele... Até lhe ganhei três mil reis, coitadinho!
Uma onda de saudade sufocou-o, fugiu com o lenço nos olhos.
Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado à escrivaninha, diante duma folha de papel. Imediatamente ergueu-se, arrojou a pena.

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