Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

- Não posso!... Escreve-lhe tu ai, a ela, duas palavras.

Em silêncio, Ega tomou a pena, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: «Minha senhora. O Sr. Afonso da Maia morreu esta madrugada, de repente, com uma apoplexia. V. Exc.ª compreende que, neste momento, Carlos nada mais pode do que pedir-me para eu transmitir a V. Exc.ª esta desgraçada noticia. Creia-me, etc.» Não o leu a Carlos. E como Baptista entrava nesse momento, todo de preto, com o almoço numa bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanário com aquele bilhete à rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o ombro do Ega:
- É bom não esquecer as fardas de luto para os criados...
- O Sr. Vilaça já sabe.
Tomaram chá à pressa em cima do tabuleiro. Depois Ega escreveu bilhetes a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos de Afonso: e davam duas horas quando chegaram os homens com o caixão para amortalhar o corpo. Mas Carlos não permitiu que mãos mercenárias tocassem no avô. Foi ele e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoção sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuseram dentro do grande cofre de carvalho, forrado de cetim claro, onde Carlos colocou uma miniatura de sua avó Runa. Á tarde, com auxilio de Vilaça, que voltara «para dar o ultimo olhar ao patrão», desceram-no ao escritório, que Ega não quisera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto, conservava a sua feição austera de paz estudiosa. Somente, para depor o caixão, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um pano de veludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima o Cristo de Rubens abria os braços sobre a vermelhidão do poente. Aos lados ardiam doze castiçais de prata. Largas palmas de estufa cruzavam-se à cabeceira do esquife, entre ramos de camélias. E Ega acendeu um pouco de incenso em dois perfumadores de bronze.
Á noite o primeiro dos velhos amigos a aparecer foi D. Diogo, solene, de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixão, só pôde murmurar: - «E tinha menos sete meses que eu!» O marquês veio já tarde, abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flores. Craft e o Cruges nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos; - e receberam a primeira surpresa ao ver fechado o portão do Ramalhete. O ultimo a chegar foi o Sequeira, que passara o dia na quinta, e se abraçou em Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lágrima nos olhos injectados, balbuciando: - «Foi-se o companheiro de muitos anos. Também não tardo!...»
E a noite de vigília e pêsames começou, lenta e silenciosa. As doze chamas das velas ardiam, muito altas, numa solenidade funerária. Os amigos trocaram algum murmúrio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exalação das flores forçaram o Baptista a abrir uma das janelas do terraço. O céu estava cheio de estrelas. Um vento fino sussurrara nas ramagens do jardim.
Já tarde Sequeira, que não se movera duma poltrona, com os braços cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o à sala de jantar, a reconforta-lo com um cálice de cognac. Havia lá uma ceia fria, com vinhos e doces. E Craft veio também - com o Taveira, que soubera a desgraça na redacção da Tarde, e correra quasi sem jantar. Tomando um pouco de Bordéus, uma sandwich, Sequeira reanimava-se, lembrava o passado, os tempos brilhantes, quando Afonso e ele eram novos. Mas emudeceu vendo aparecer Carlos, pálido e vagaroso como um sonâmbulo, que balbuciou: «Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...»
Mexeu num prato, deu uma volta à mesa, saiu. Assim vagamente foi até à ante-câmara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra surgiu da escada. Dois braços enlaçaram-no. Era o Alencar.
- Nunca vim cá nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pés, como pela nave dum templo.
Carlos no entanto deu ainda alguns passos pela ante-câmara. Ao canto dum divã ficara um grande cesto com uma coroa de flores, sobre que pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. Não lhe tocou, recolheu ao escritório. Alencar, diante do caixão, com a mão pousada no ombro do Ega, murmurava: «Foi-se uma alma de herói!»
As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café no bilhar. E ai, apenas recebeu a sua chávena, Alencar, cercado do Cruges, do Taveira, do Vilaça, rompeu a falar também do passado, dos tempos brilhantes de Arroios, dos rapazes ardentes de então:
- Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo neste desgraçado país!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Afonso da Maia! Parece que o estou a ver, à janela do palácio em Benfica, com a sua grande gravata de cetim, aquela cara nobre de português de outrora... E lá vai! E o meu pobre Pedro também... Caramba, até se me faz a alma negra!

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