Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

Os olhos enevoavam-se-lhe, deu um imenso sorvo ao cognac.

Ega, depois de beber um gole de café, voltara ao escritório, onde o cheiro de incenso espalhava uma melancolia de capela. D. Diogo, estirado no sofá, ressonava; Sequeira defronte dormitava também, descaído sobre os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. Os dois velhos amigos, depois dum abraço a Carlos, partiram na mesma carruagem, com os charutos acesos. Os outros, pouco a pouco, iam também abraçar Carlos, enfiavam os paletós. O ultimo a sair foi Alencar, que, no pátio, beijou o Ega, num impulso de emoção, lamentando ainda o passado, os companheiros desaparecidos:
- O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem à margem! Senão, caramba, quando quiser fazer uma visita tenho de ir ao cemitério. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, à uma hora. O Ega, o marquês, o Craft, o Sequeira levaram o caixão até à porta, seguidos pelo grupo de amigos, onde destacava o conde de Gouvarinho, soleníssimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma coroa de violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, numa longa fila que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as janelas do bairro se apinhava gente: os polícias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véus de crepe que pendiam. Atrás, um a um, desfilaram os trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a friagem do dia enevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemitério encontrou Carlos no quarto, rasgando papéis, enquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de couro. E como Ega, pálido e arrepiado de frio, esfregava as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
- Tens dúvida em lhe ir falar, a ela?
- Não. Para que?... Para lhe dizer o que?
- Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brasas. E Carlos, ao lado, prosseguiu devagar, olhando o lume:
- Além disso, desejo que ela parta, que parta já para Paris... Seria absurdo ficar em Lisboa... Enquanto se não liquidar o que lhe pertence, hade-se-lhe estabelecer uma mesada, uma larga mesada... Vilaça vem daqui a bocado para falar desses detalhes... Em todo o caso, amanhã, para ela partir, levas-lhe quinhentas libras.
Ega murmurou:
- Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Vilaça...
- Não, pelo amor de Deus! Para que se há de fazer corar a pobre criatura diante do Vilaça?...
Houve um silêncio. Ambos olhavam a chama clara que bailava.
- Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...
- Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão à rua de S. Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com ele a Santa Olavia. Mais tarde era necessário trasladar para lá o corpo do avô...
- E passado isso, vou viajar... Vou à América, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estúpida e sempre eficaz que se chama distrair...
Encolheu os ombros, foi devagar até à janela, onde morria palidamente um raio de sol na tarde que clareara. Depois voltando para o Ega, que de novo remexia os carvões:
Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava bem, mas não me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos, comovido:
- Atreve, que diabo... Porque não?
- Então vem!
Carlos pusera nisto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na face duas grandes lágrimas

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