Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

- Sabe tudo? exclamou Ega, que saltara do parapeito

- Tudo não. Ela diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado «todos aqueles erros em que ela caíra inconscientemente». Isto dá a entender que não sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda ver os meus quartos.
Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela ala onde cresciam outrora as roseiras de Afonso. Sob as duas olaias ainda existia o banco de cortiça; Maria sentara-se ali, na sua visita ao Ramalhete, a atar num ramo flores que ia levar como relíquia. Ao passar Ega cortou uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente.
- Ela continua a viver em Orleans, não é verdade?
Sim, disse Carlos, vivia ao pé de Orleans, numa quinta que lá comprara, chamada Les Rosières. O noivo devia habitar nos arredores algum pequeno château. Ela chamava-lhe «vizinho». E era naturalmente um gentilhome campagnard, de família séria, com fortuna...
Ela só tem o que tu lhe dás, está claro.
- Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Enfim ela recusou-se a receber parte alguma da sua herança... E o Vilaça arranjou as coisas por meio duma doação que lhe fiz, correspondente a doze contos de reis de renda...
- É bonito. Ela falava de Rosa na carta?
- Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.
- E bem linda!
Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos quartos de Carlos. Com a mão na porta da vidraça, Ega parou ainda, numa derradeira curiosidade:
- E que efeito te fez isso?
Carlos acendia o charuto. Depois atirando o fósforo por cima da varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaçava:
- Um efeito de conclusão, de absoluto remate. É como se ela morresse, morrendo com ela todo o passado, e agora renascesse sob outra forma. Já não é Maria Eduarda. É Madame de Trelain, uma senhora francesa. Sob este nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braças, findo para sempre, sem mesmo deixar memória... Foi o efeito que me fez.
- Tu nunca encontraste em Paris o Sr. Guimarães?
- Nunca. Naturalmente morreu.
Entraram no quarto. Vilaça, na suposição de Carlos vir para o Ramalhete, mandara-o preparar; e todo ele regelava - com o mármore das cómodas espanejado e vazio, uma vela intacta num castiçal solitário, a colcha de fustão vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos pousou o chapéu e a bengaIa em cima da sua antiga mesa de trabalho. Depois, como dando um resumo:
- E aqui tens tu a vida, meu Ega! Neste quarto, durante noites, sofri a certeza de que tudo no mundo acabara para mim... Pensei em me matar. Pensei em ir para a Trapa. E tudo isto friamente, com uma conclusão lógica. Por fim dez anos passaram, e aqui estou outra vez...
Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas colunas de carvalho lavrado, deu um jeito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:
- E mais gordo!
Ega espalhava também pelo quarto um olhar pensativo:
- Lembras-te quando apareci aqui uma noite, numa agonia, vestido de Mefistófeles?
Então Carlos teve um grito. E a Raquel, é verdade! A Racial? Que era feito da Racial, esse lírio de Israel?
Ega encolheu os ombros:
- Para aí anda, estuporada...
Carlos murmurou - «coitada! E foi tudo o que disseram sobre a grande paixão romântica do Ega.

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