Os Maias de Eça de Queirós

Episodios da vida romantica

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Local: United States

sábado, setembro 10, 2005

- Vamos embora, exclamou Ega. Isto está lúgubre...

Mas Carlos, pálido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Aí, que era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente acumulados na confusão das artes e dos séculos, como num armazém de bric-à-brac, todos os móveis ricos da Toca. Ao fundo, tapando o fogão, dominando tudo na sua majestade arquitectural, erguia-se o famoso armário do tempo da Liga Hanseática, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os quatro Evangelistas pregando aos cantos, envoltos nessas roupagens violentas que um vento de profecia parece agitar. E Carlos imediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que entre troféus agrícolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pé de cabra, outro perdera a sua frauta bucólica...
- Que brutos! exclamou ele furioso, ferido no seu amor da coisa de arte. Um móvel destes!...
Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no entanto, errava entre os outros móveis, cofres nupciais, contadores espanhóis, bufetes da Renascença italiana, recordando a alegre casa dos Olivais que tinham ornado, as belas noites de cavaco, os jantares, os foguetes atirados em honra de Leónidas... Como tudo passara! De repente deu com o pé numa caixa de chapéu sem tampa, atulhada de coisas velhas - um véu, luvas desirmanadas, uma meia de seda, fitas, flores artificiais. Eram objectos de Maria, achados nalgum canto da Toca, para ali atirados, no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentável, entre estes restos dela, misturados como na promiscuidade dum lixo, aparecia uma chinela de veludo bordada a matiz, uma velha chinela de Afonso da Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo dum pedaço solto de tapeçaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mãos, ainda indignado, Ega apressou aquela peregrinação, que lhe estragava a alegria do dia.
- Vamos ao terraço! Dá-se um olhar ao jardim, e abalamos!
Mas deviam atravessar ainda a memória mais triste, o escritório de Afonso da Maia. A fechadura estava perra. No esforço de abrir a mão de Carlos tremia. E Ega, comovido também, revia toda a sala tal como outrora, com os seus candeeiros Carcel dando um tom cor de rosa, o lume crepitando, o reverendo Bonifácio sobre a pele de urso, e Afonso na sua velha poltrona, de casaco de veludo, sacudindo a cinza do cachimbo contra a palma da mão. A porta cedeu: e toda a emoção de repente findou, na grotesca, absurda surpresa de romperem ambos a espirrar, desesperadamente, sufocados pelo cheiro acre dum pó vago que lhes picava os olhos, os estonteava. Fora o Vilaça, que, seguindo uma receita de almanaque, fizera espalhar ás mãos cheias, sobre os móveis, sobre os lençóis que os resguardavam, camadas espessas de pimenta branca! E estrangulados, sem ver, sob uma névoa de lágrimas, os dois continuavam, um defronte do outro, em espirros aflictivos que os desengonçavam.
Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas duma janela. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar puro, ali ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda por um ou outro espirro retardado.
- Que infernal invenção! exclamou Carlos, indignado.
Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçara, batera contra um sofá, coçava a canela:
- Estúpida coisa! E que bordoada que eu dei!... Voltou a olhar para a sala, onde todos os móveis desapareciam sob os largos sudários brancos. E reconheceu que tropeçara na antiga almofada de veludo do velho Bonifácio. Pobre Bonifácio! Que fora feito dele?

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